segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A GNOSE HISTÓRICA 2ª Parte



11. Basílides
Basílides também é alexandrino e contemporâneo de Carpócrates. Mas Epifânio nos
mostra nele um discípulo de Menandro. É patente aliás que seu gnosticismo se situa no
prolongamento do gnosticismo sírio. Mas foi ele o primeiro a organizar as doutrinas dos
simonianos em uma grande síntese. Encontramos nele a concepção dos anjos criadores
do mundo, repartindo entre si a dominação do mesmo. Um dentre eles é o Deus dos
judeus, que procura submeter os demais a seu poder. Basílides não empresta
importância ao fato de se comerem carnes imoladas aos ídolos. João fazia tal censura
aos nicolaítas no Apocalipse. Esta total libertação da Lei caracteriza os gnósticos e
representa um exagero do paulinismo, no extremo oposto do judeu-cristianismo
joaneico.
O interesse demonstrado por Basílides reside no fato de a apocalíptica judaica aparecer
nele, melhor que em todos os outros, em sua transposição gnóstica. R. M. Grant já
consignou como as especulações sobre o calendário sagrado, que eram uma das
expressões da teologia da história nos autores apocalípticos judeus, se transportam para
um plano cosmológico e fornecem o quadro da doutrina dos éons. Assim, para
Basílides, existem trezentos e sessenta e cinco céus, e a cada qual corresponde uma
ordem de anjos. Basílides além disso declara que é ele próprio o intermediário entre
judeus e cristãos. É também ao judaismo que Basílides toma emprestada sua doutrina
dos vícios como demônios pessoais que fixam morada na alma. Já fizemos referência a
ela em Carpócrates.
O cotejo dos diversos movimentos não nos deixa dúvidas sobre a continuidade
fundamental deles entre si. O elemento primordial é a oposição do Deus escondido, que
se manifestará em Cristo, aos anjos criadores do mundo, entre os quais se encontra Javé.
Tal tradição pode ter tido suas antecipações na tradição judaica, pelo papel atribuído aos
anjos na criação do homem e na transmissão da Lei. Mas depois de 70, se torna ela para
certo número de judeus e judeu-cristãos a expressão da revolta contra Deus, que os
decepcionou em sua expectativa escatológica, e contra a criação que é sua obra. A
origem judaica e judeu-cristã aparece claramente no fato de todos estes elementos -
especulação sobre o Gênese, doutrina dos sete anjos, calendário sagrado, anjos dos
vícios, descida através das esferas, - terem sua raiz na Apocalíptica.
As linhas do desenvolvimento histórico do movimento se apresentam igualmente claras.
O gnosticismo nasce após 70 nos meios judeu-cristãos messianistas da Ásia com
Cerinto, de Antioquia com Menandro. A corrente asiática apresenta um caráter mais
prático. Sublinha sobretudo o aspecto da revolta contra a Lei. Apresenta-se como
exasperação de certas tendências paulinas. Reveste certas formas amoralistas. A
corrente antioquena é mais especulativa. É ele que suscita com o Apocryphon de João, a
primeira grande obra gnóstica que conhecemos. As duas correntes desenvolvem-se em Alexandria no fim do período que ora estudamos. Mas enquanto o primeiro não deve
demorar a extinguir-se com as últimas chamas do messianismo judeu, o segundo há de
encontrar no ambiente alexandrino as condições para um desenvolvimento
extraordinário. Menandro marca o encontro entre o messianismo samaritano de Simão e
o gnosticismo. Dedica-se ao apostolado em Antioquia entre 70 e 100. Satornil se torna
seu herdeiro, conforme já o atesta Justino. É a primeira grande figura do gnosticismo
propriamente dito. Sua ação se passa em Antioquia, entre 100 e 130 mais ou menos. No
início da carreira, teve por bispo a Inácio. Sua doutrina representa o desenvolvimento do
que encontramos com Menandro. Opõe os sete anjos criadores, com o Deus dos judeus
por chefe, ao Deus escondido. Estes anjos e que criam o homem, mas ele se arrasta
sobre a terra, enquanto o Deus escondido não lhe concede uma parte da luz que emite.
Aliás, Satornil condena o casamento, que ele deriva de Satanás; alguns de seus
discípulos não comem carne.Santo Ireneu observa que é ele o primeiro a distinguir duas
raças de homens, os que têm parte na luz celeste e os que não têm parte nela. Tal
doutrina é que constitui propriamente o dualismo gnóstico, que subtrai a Deus o que
procede da criação pêlos anjos planetários. Mas percebemos quanto o contexto ainda
continua sendo judeu. Depende da narração da criação pelo Gênese, narração que se
transforma em um dos temas da especulação judia do tempo; seu ascetismo procede do
judaismo marginal; sua doutrina dos sete arcanjos é a do apocalipse judeu. Ao mesmo
tempo porém faz de Javé o príncipe dos anjos responsáveis pela criação. Trata-se pois
de uma crise no interior do judeu-cristianismo, duma revolta contra o Deus de
Israel.Santo Ireneu resume no capitulo XIX do livro I do Adversus Haereses a doutrina
de uma seita que ele chama de barbelognósticos. Possuímos agora a obra de que resume
a primeira parte. Trata-se do Apócrifo de João, conservado num exemplar em Berlim; e
de que foram reencontrados três outros em Nag Hammadi. O número importante de
exemplares atesta que se trata de obra capital. Apresenta-se sob a forma de uma
revelação feita por Cristo ressuscitado a São João no Monte das Oliveiras. A primeira
parte contém uma genealogia dos éons do pléroma. Depois, a partir de 45,5, temos uma
sorte de comentário ao Gênesis. Os sete arcontes tentam formar um homem a
semelhança de Deus. Tal homem é incapaz de mover-se. A Sabedoria, Sophia, lhe
comunica uma forca, que o torna superior aos arcontes, e suscita a inveja dos mesmos,
em particular do chefe deles laldabaoth, o Javé judeu.A obra está repleta de alusões aos
apócrifos judeus. Estamos sempre no mesmo ambiente. A doutrina aliás se assemelha
aquela que desenvolve a Epistola de Eugnosto, reencontrada em Nag Hammadi.
Pareceria assim ser antes a obra de um discípulo de Satornil, e não de Satornil mesmo.
Sua origem síria parece evidente. Possuímos afinal um documento original do
gnosticismo primitivo. H. Ch. Puech data-o da primeira metade do segundo século.
Todos os temas gnósticos já estão presentes, incluídos os éons do pléroma e o papel de
Sophia. Ao mesmo tempo a unidade da doutrina gnóstica aparece através da
multiplicidade de suas expressões e de suas correntes.O capitulo XXX do livro I de
Santo Ireneu, depois da doutrina dos barbelognósticos, nos apresenta a dos setenses. A
comparação desta informação com a segunda parte do Apócrifo de João, resumido no
capitulo anterior por Ireneu, torna patente que se trata de um desdobramento da mesma
gnose, de caráter judeu-cristão mais marcado Os éons do pléroma são, depois do Pai, o
Filho e o Espirito Santo, em seguida o Cristo e a Igreja. Os éons do Pléroma produzem
Sophia. Esta por sua vez engendra, pela união com as águas inferiores, sete filhos,
laldabaoth, Iao, Sabbaoth, Adonai, Elohim, Astaphaim e Horaios (1,30,5). Os anjos
formam o homem a sua semelhança. Cristo desce através dos sete céus, para estupor dos
poderes, tomando formas de anjos em cada céu (1,30,1 1).Possuímos aqui os mesmos
temas fundamentais que encontramos no Apocryphon. Anotemos que os sete anjos trazem os diferentes nomes de Javé no Antigo Testamento. Encontramos além disso os
temas da teologia judeu-cristã, tal como a encontramos na Ascensão de Isaías, na
Epistola dos Apóstolos, no Pastor de Hermas: preexistência de Cristo e da Igreja,
descida oculta de Cristo através das esferas dos anjos, estupor dos poderes. Estamos em
presença do gnosticismo judeu-cristão mais caracterizado. É contemporâneo da teologia
judeu-cristã. Sua ligação com Antioquia parece certa É a tal grupo que se ligarão
diversas obras reencontradas em Nag Hammadi, como o Livro do Grande Seth.Da Ásia
e da Síria, o gnosticismo judeu-cristão se difundiu para o Egito, onde devia
experimentar um desenvolvimento extraordinário. Sabemos que Cerinto veio a
Alexandria. Por 120, ai encontramos uma doutrina que aparece como desenvolvimento
da sua, é a de Carpócrates. Também ele ensina que o mundo foi criado pêlos anjos, que
Jesus nasceu de José e que um poder baixou nele. Aquele que partilha com ele o poder
lhe é igual. Pode menosprezar os arcontes fabricantes do mundo e cumprir os mesmos
prodígios que Jesus. É um traço que estivera ausente em Cerinto. Pode prender-se no
entanto ao gnosticismo asiata sob a forma mais acusada.Efetivamente, Carpócrates não
apresenta traço algum do milenarismo messiânico de Cerinto. Este aliás permaneceu
circunscrito a Ásia e ao mundo ocidental. Por outro lado, reencontramos nele a
concepção segundo a qual o homem não pode ser libertado dos arcontes, senão depois
de ter sido escravo dos vícios aos quais aqueles presidem. Caso contrário, terá que
reencarnar-se para pagar sua divida. A doutrina dos demônios dos vícios, a da
reencarnação, provêm do judaismo heterodoxo. Carpócrates lhe ajunta um amoralismo,
que parece ter sua origem na revolta gnóstica não somente contra o Deus judeu, mas
contra a Lei. Por este traço e pelo menosprezo votado aos anjos, lembra os nicolaítas e
aparece como a expressão do gnosticismo em estado puro, ao rejeitar, com violência, a
criação.Basílides também é alexandrino e contemporâneo de Carpócrates. Mas Epifânio
nos mostra nele um discípulo de Menandro. É patente aliás que seu gnosticismo se situa
no prolongamento do gnosticismo sírio. Mas foi ele o primeiro a organizar as doutrinas
dos simonianos em uma grande síntese. Encontramos nele a concepção dos anjos
criadores do mundo, repartindo entre si a dominação do mesmo. Um dentre eles é o
Deus dos judeus, que procura submeter os demais a seu poder. Basílides não empresta
importância ao fato de se comerem carnes imoladas aos ídolos. João fazia tal censura
aos nicolaítas no Apocalipse. Esta total libertação da Lei caracteriza os gnósticos e
representa um exagero do paulinismo, no extremo oposto do judeu-cristianismo
joaneico.O interesse demonstrado por Basílides reside no fato de a apocalíptica judaica
aparecer nele, melhor que em todos os outros, em sua transposição gnóstica. R. M.
Grant já consignou como as especulações sobre o calendário sagrado, que eram uma das
expressões da teologia da história nos autores apocalípticos judeus, se transportam para
um plano cosmológico e fornecem o quadro da doutrina dos éons. Assim, para
Basílides, existem trezentos e sessenta e cinco céus, e a cada qual corresponde uma
ordem de anjos. Basílides além disso declara que é ele próprio o intermediário entre
judeus e cristãos. É também ao judaismo que Basílides toma emprestada sua doutrina
dos vícios como demônios pessoais que fixam morada na alma. Já fizemos referência a
ela em Carpócrates.O cotejo dos diversos movimentos não nos deixa dúvidas sobre a
continuidade fundamental deles entre si. O elemento primordial é a oposição do Deus
escondido, que se manifestará em Cristo, aos anjos criadores do mundo, entre os quais
se encontra Javé. Tal tradição pode ter tido suas antecipações na tradição judaica, pelo
papel atribuído aos anjos na criação do homem e na transmissão da Lei. Mas depois de
70, se torna ela para certo número de judeus e judeu-cristãos a expressão da revolta
contra Deus, que os decepcionou em sua expectativa escatológica, e contra a criação
que é sua obra. A origem judaica e judeu-cristã aparece claramente no fato de todos estes elementos - especulação sobre o Gênese, doutrina dos sete anjos, calendário
sagrado, anjos dos vícios, descida através das esferas, - terem sua raiz na
Apocalíptica.As linhas do desenvolvimento histórico do movimento se apresentam
igualmente claras. O gnosticismo nasce após 70 nos meios judeu-cristãos messianistas
da Ásia com Cerinto, de Antioquia com Menandro. A corrente asiática apresenta um
caráter mais prático. Sublinha sobretudo o aspecto da revolta contra a Lei. Apresenta-se
como exasperação de certas tendências paulinas. Reveste certas formas amoralistas. A
corrente antioquena é mais especulativa. É ele que suscita com o Apocryphon de João, a
primeira grande obra gnóstica que conhecemos. As duas correntes desenvolvem-se em
Alexandria no fim do período que ora estudamos. Mas enquanto o primeiro não deve
demorar a extinguir-se com as últimas chamas do messianismo judeu, o segundo há de
encontrar no ambiente alexandrino as condições para um desenvolvimento
extraordinário.

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